Desenraizar o ordenamento: território, planeamento e urbanismo na pós-colonialidade portuguesa

Ricardo Cardoso

Resumo


Centro para alguns e periferia de muitos outros, Portugal ocupa um lugar peculiar nas ecologias de produção de conhecimento urbano contemporâneo. Se por um lado a noção de ordenamento que por cá se tem vindo a gerar representa a norma a partir da qual a ordem é definida em várias partes do mundo, por outro lado a teoria urbana chega-nos de outros lugares. Nada disto é surpreendente. Em boa verdade, raros são os casos em que a noção de ordenamento é absolutamente interior à realidade empírica na qual é aplicada. Porém, as trajetórias percorridas pela teoria estão longe ser simétricas. Os conceitos não estão uniformemente distribuídos e a natureza hierárquica das relações Norte-Sul desempenha aqui um papel fundamental.
Este artigo procura ensaiar uma abordagem pós-colonial às questões do território, planeamento e urbanismo em Portugal. Partindo da importância de considerar as itinerâncias da teoria, o que está aqui em causa é um “duplo movimento de deslocalização e de localização” semelhante aquele proposto por Manuela Ribeiro Sanches em Deslocalizar
a Europa (2005). Há, porém, um longo caminho a percorrer e antes de poder deslocalizar há que desenraizar.
Com este artigo pretende-se estabelecer pontos de partida para a reinterpretação das formas de conhecimento urbano que por cá se produz, questionando as suas certezas epistemológicas e pondo em causa os seus horizontes geográficos e disciplinares. Pretende-se, por outras palavras, lançar bases para muitas viagens teóricas “pelos interstícios das culturas, nações e disciplinas” (Ribeiro Sanches 2005: 8). Bases essas que terão três breves itinerários: o primeiro percurso far-se-á pelos estudos pós-coloniais, a segunda rota trilhará as inflexões portuguesas ao pensamento pós-colonial, e a terceira trajetória seguirá as principais zonas de impacto da pós-colonialidade nas disciplinas de estudo e ordenamento do território a nível internacional. Estes três itinerários irão então desembocar numa análise do conhecimento sobre território, planeamento e urbanismo no contexto Português. Ao analisar as propostas teóricas de João Ferrão e Álvaro Domingues, dois autores que recorrentemente põem em causa o núcleo dominante das disciplinas de ordenamento em Portugal, este artigo pretende ilustrar o quão enraizada está a imaginação colonial no nosso território, planeamento e urbanismo. Também aqui há muito por descolonizar. Também aqui há que estimular novas formas de interpretar, compreender e ensinar o passado e o presente.


Palavras-chave


teoria urbana; planeamento; pós-colonialismo; Portugal; trajetórias conceptuais

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