Os não-lugares e as suas instruções

Ruben D. G. M. Caldeira

Resumo


O estudo que aqui se apresenta tem como
principal objetivo problematizar o conceito de nãolugar
na aceção de Augé (1992), atentando, sobretudo,
nas práticas comunicacionais e semióticas que este tipo
de espaços motiva em função da sua pretensa natureza
não-relacional. Caracterizados por Augé (1992: 100) como
espaços por natureza não-identitários, não-relacionais
e não-históricos, os não-lugares promovem práticas
comunicacionais muito distintas quando comparados
com outros espaços também de natureza pública.
Neste sentido, mais do que uma caracterização
dos não-lugares em si, procura-se, com este trabalho, uma
caracterização dos processos comunicacionais presentes
nos não-lugares, a partir das seguintes perguntas de
investigação: que tipo de linguagem impera nos nãolugares?
Que função tem a linguagem neste tipo de
espaços? Que processos semióticos estão implícitos nas
mensagens emitidas nos não-lugares? Em suma, como se
processa a comunicação nos não-lugares? As respostas
a estas questões dão o mote a este trabalho e ajudam a
estruturá-lo na sua especificidade.
A relevância de um trabalho desta natureza
passa, não só pela constatação da centralidade destes
espaços na vida do sujeito contemporâneo mas, sobretudo,
pela problemática que estes espaços encerram: se, por um
lado, os não-lugares são reconhecidos como os espaços
típicos da globalização, pois generalizam, quase à escala
planetária, as possibilidades de consumo, comunicação
e circulação de pessoas e bens, por outro lado, estes
são, por definição, não-relacionais, o que, por extensão,
levaria a considerá-los não-comunicacionais. Porém, o
que suporia os não-lugares como espaços por natureza
não-comunicacionais, em resultado da não-relação,
revela, antes, formas de comunicação muito próprias
que, por via da naturalização da ausência das relações
interpessoais, medeiam o contacto dos utentes com os
espaços em questão. Que estratégias comunicacionais
são, então, adotadas pelas entidades que gerem estes
espaços como tentativa de suprir as falhas resultantes
da não-relação? Eis a derradeira questão.
O estudo mostra que a natureza global dos
não-lugares e a diversidade de sujeitos que os frequenta
levam à generalização de mensagens cujo intuito passa,
essencialmente, pela uniformização dos comportamentos
de todos os que por ali transitam. Apesar da nãorelação,
verifica-se uma certa uniformidade nos modos
de proceder que torna as ações dentro destes espaços
expectáveis. Tal facto deve-se à emissão de um conjunto
de mensagens que, na prática, não são mais do que
verdadeiras “instruções de uso” dos espaços a que se
associam (Augé, 1992: 121).
Considerando as condições apontadas por
Augé para a constituição do não-lugar, constata-se que
a natureza transitória destes espaços propicia um tipo
de comunicação assente em formas de fácil veiculação
de sentido, vingando, sobretudo, a linguagem icónica.
É, então, com o intuito de traçar o quadro
comunicacional dos não-lugares, que se analisam
algumas mensagens, recolhidas nos não-lugares
considerados mais significativos para este trabalho: a
saber, a generalidade dos meios de transporte e espaços
afetos da Carris e do Metropolitano de Lisboa, do
Aeroporto Internacional de Lisboa e dos Comboios de
Portugal, bem como os espaços de consumo e de lazer
de que são exemplo, respetivamente, os hipermercados
Continente e os centros comerciais Colombo e Vasco
da Gama. Consideram-se, ainda, outras estruturas de
aspeto transitório como os elevadores e alguns trechos
de autoestradas.
O levantamento de tais mensagens e, por
conseguinte, a análise dos seus principais modos
de enunciação (visual, sonoro e táctil), dá conta do
predomínio da sinalética, e da multimodalidade em
geral, como linguagem principal dos não-lugares. Esta
análise resulta na categorização dos três principais tipos
de mensagem que circulam nos lugares de transição:
mensagens informativas, mensagens prescritivas e
mensagens proibitivas. Independentemente da tipologia,
o que se observa é que a grande maioria das mensagens
difundidas nestes espaços tende a atuar no sentido
de reforçar a padronização das condutas individuais,
mostrando que, só muito raramente, o itinerário final
é livre de influências externas. Pelo contrário, este tem,
quase sempre, muito mais de recomendado do que de
livre escolha.


Palavras-chave


não-lugares; espaço público; comunicação visual; sinalética

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Referências


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