Background, Jogo e Educação

Mafalda Eiró-Gomes, João Tiago Proença

Resumo


Na sua hipótese do background, John Searle desenvolve
uma teoria implícita da educação. Não se trata, para
Searle de moldar, por via de regras inculcadas do exterior,
uma atitude que se operacionalize em atos explícitos de
aplicação tais regras. Pelo contrário, este modelo não
dá conta do que realmente se passa, uma vez que as
regras não são, por definição, self interpreting nem são
exaustivas. Ora, tal significa não são elas que dão um
sentido – circunscrito previamente – à ação; assim o
background tem de ser pensado como estando presente
impercetivelmente em todos os estados intencionais,
sendo assim a condição de possibilidade quer da
interpretação linguística, quer da ação.
Os exemplos de background aduzidos por Searle são
sempre exemplos de uma aprendizagem que acaba por se
fundir progressivamente na própria ação e interpretação.
Neste processo, quem aprende integra a prática exterior
– que pode ser uma prática linguística – até se sentir à
vontade na prática, num automatismo quase animal.
Visto da perspetiva do chamado maravilhoso infantil,
vê-se que o seu desvanecimento, a educação, decorre
de uma integração de uma exterioridade partilhada,
comum, linguística, descentrando assim a fantasia
da omnipotência infantil, inerente ao maravilhoso
infantil, e possibilitando relações intersubjetivas de
reconhecimento recíproco. Deste modo, a fixação de
um background cultural mínimo que fixa uma forma de
experiência, isto é, expectativas de comportamento social
minimamente estabilizadas, tem a sua relevância mais do
que em meras atualizações episódicas naquilo que Searle
designa por categorias dramáticas. Por outras palavras,
em séries temporalmente extensas de experiências que só
são possíveis em ações socialmente concertadas.
Neste sentido, o jogo e a compulsão à repetição própria
das crianças, em que desde sempre se reparou, é um
modo espontâneo de autoeducação, na medida em que
visam a criação de um background, em particular os jogos
coletivos que constituem uma prefiguração das categorias
dramáticas. O jogo infantil, em que a própria obrigação
de agir de acordo com regras prévias é negociada entre
as crianças, perfila-se deste modo como o elemento
autodestrutivo, mas necessário, da própria infância.


Palavras-chave


background; infância; educação; correção normativa; comunicação

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Referências


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Huizing, Johan (2003) [1938]. Homo ludens : um estudo sobre o elemento lúdico da cultura. Lisboa, Ed. 70.

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Searle, John R. (1998) [1992]. A redescoberta da mente. Lisboa, Instituto Piaget.

Idem (1995). The Construction of Social Reality. Londres, The Penguin Press.