Da rave ao neo-ritual multimédia

Emília Simão, Sérgio Magalhães, Armando Silva

Resumo


Esta comunicação insere-se no âmbito de uma
investigação enquadrada tendo por base a comunicação
multimédia e as ciências da informação e da comunicação,
contextualizada no fenómeno das aglomerações neotribais
associadas à cultura da música eletrónica.
O aparecimento de movimentos culturais alternativos
dos finais do séc.XX, alguns dos quais associados
à cultura rave originaram a emergência de vários
géneros musicais alternativos, como é o caso do Psy
Trance (Transe Psicadélico). O fenómeno do Transe
Psicadélico traz consigo eventos de contornos neo-rituais
simultaneamente arcaicos e futuristas, em que as novas
tecnologias multimédia assumem um papel fundamental
enquanto criadoras e mediadoras de realidades paralelas.
Através de uma pesquisa essencialmente qualitativa
baseada em revisão de literatura, entrevistas a painel
de peritos do universo da cultura Transe, e observação
participante em vários eventos de referência, foram
tiradas algumas conclusões que conferem às novas
tecnologias e à comunicação multimédia um papel
estratégico.
Apesar da música eletrónica ser o elemento central
desse universo, o próprio contexto onde esta se
consome foi sendo aliado a novos conceitos estéticos
através da comunicação multimédia. Estes elementos
exclusivamente concebidos e mediados por computador
funcionam assim como um todo concebido para
despertar experiências e sensações, ao reforçar a
intenção dos sujeitos nesse sentido. A comunicação
multimédia, enquanto promotora de experiências multisensoriais,
pode potenciar experiências psicadélicas
transversalmente pela experiência multimédia, associadas
à assimilação das sonoridades específicas deste estilo
musical, em simultâneo com imagens projetadas em
consonância com as variações rítmicas da música.
Alguns DJ´s (Disc Jockeys) e VJ´s (Vídeo Jockeys)
assumem-se metaforicamente como xamãs pósmodernos,
ao proporcionarem a indução de estados de
consciência alternativos (de transe) aos participantes
no neo-ritual. Através da multimédia, eles comunicam
com o público no limiar da manipulação. Considerando
o xamanismo uma técnica arcaica do êxtase, explorase
neste trabalho a viabilidade de considerar o papel
da multimédia como uma técnica pós-moderna do
êxtase neste tipo de cenários, criados especialmente
para remeter para mundos imaginários e realidades
alternativas.


Palavras-chave


transe psicadélico; neo-rituais; comunicação multimédia; música eletrónica

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