A viola e o violão na canção de câmara brasileira: representações musicais e simbolismos

Cláudia Araújo Garcia

Resumo


Intrinsecamente ligados à canção, a viola e o violão participaram de maneira
decisiva no surgimento e configuração dos principais gêneros vocais brasileiros. Trazidos
pelos portugueses, esses instrumentos conquistaram enorme popularidade e foram,
paulatinamente, se estabelecendo: o violão, na área urbana, tornando-se elemento de
mediação e difusão cultural, e a viola, no interior, passando a acompanhar outro tipo de
canção, a moda de viola. Perpassando sua vertente popular, precisamos verificar como
esses instrumentos se fizeram presentes na canção de câmara brasileira através da
representação ou tradução de suas imagens e sonoridades no acompanhamento pianístico.
Primeiramente, investigaremos que recursos musicais e idiomáticos são utilizados pelo piano
para construir as canções nacionalistas que têm a viola e o violão como título ou tema. Em
seguida, estabeleceremos as associações simbólicas a que esses elementos musicais nos
remetem, como ambientes, práticas e contextos. Por fim, verificaremos a hipótese de que o
violão – combatido e estigmatizado por sua relação com a vadiagem e boemia – seria aceito
na esfera erudita através da tradução de sua imagem e sonoridade pelo piano. Ou seja,
deslocado de seu espaço original, mas mantendo sua identificação com a cultura brasileira, o
violão teria sua entrada permitida através do tratamento artístico e culto que o piano poderia
lhe conferir. Para verificar essa representação musical e simbólica, recorremos à análise da
obra de importantes compositores nacionalistas como Heitor Villa-Lobos, Oscar Lorenzo
Fernandez e Mozart Camargo Guarnieri. De maneira geral, foi possível observar por meio
desse estudo que alguns procedimentos, como cromatismos, staccatos, baixos melódicos e
contrapontísticos, são comuns tanto à viola quanto ao violão. Porém, a forma de tratá-los
modifica seu sentido. Assim, enquanto a viola se traduz através de recursos musicais
relacionados ao meio rural, como o uso de terças paralelas e glissandos, o violão se revela
caracterizado por sua tradição como instrumento urbano, acompanhador da modinha, onde
os elementos do choro e da seresta determinariam não só sua linguagem e espaço como
também a formação de um repertório de canção de câmara brasileira originalmente escrito
para voz e violão.


Palavras-chave


violão; viola; canção de câmara brasileira; imagem; associações simbólicas

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Referências


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Nogueira, Gisela (2008) A viola con anima: uma construção simbólica. Tese

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