A traição da morte: figurações de Caim e dos seus duplos

Maria Aline Ferreira

Resumo


O objectivo deste ensaio é analisar algumas personagens que de várias maneiras descendem temática e simbolicamente de Caim, assim como dois tópicos intimamente relacionados com essas figuras: a imortalidade
e o Duplo.
Nessa linhagem de descendentes de Caim situam-se os protagonistas do romance Frankenstein (1818; 1831) de Mary Shelley e Cain de Lord Byron (1821), uma peça que Shelley admirava. Tanto Frankenstein como Cain são por sua vez profundamente devedores do poema épico Renascentista de Milton, Paradise Lost, que William Blake, um confesso admirador de Cain de Byron, ilustrou profusamente, incluindo litografias de Caim. A concentração da minha análise fundamentalmente em obras do período Romântico decorre do aumento de visibilidade e interesse na temática do Herói, que assume várias características comuns às personagens principais das obras mencionadas: a rebeldia contra Deus, a identificação com Lúcifer, a ânsia de imortalidade e revolta contra a condição humana, agrilhoada a um corpo finito. A presença de um Duplo, o castigo de ter de vaguear solitário, assim como o não assumir a responsabilidade pelos seus actos, abandonado aquele que se tornou na sua vítima são outros traços partilhados e salientes. As semelhanças
entre Caim e Abel e os protagonistas de Frankenstein, Victor Frankenstein e a sua Criatura, também eles alternando entre Criador e Criatura, Deus e Lúcifer, irmãos e Duplos, são numerosas e significativas, assim como entre Cain de Byron e o Caim de José Saramago (a temática da Morte e do Duplo, de resto, atravessam e estruturam a obra saramaguiana).
Como mitos de criação, com numerosos ecos em desenvolvimentos científicos actuais e antecipados, mitos esses que incluem uma ambígua relação com a possibilidade do prolongamento da vida (uma extensão parcialmente conseguida ou imaginada pela ciência) estas histórias, como herança de Caim, possuem uma cada vez maior actualidade.

Palavras-chave


Caim; Byron; Mary Shelley; romantismo; George Bernard Shaw; Saramago

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