Os caminhos e os sentidos do exílio na poesia de Ferreira Gullar

Marcélia Guimarães Paiva, Raquel Beatriz Junqueira Guimarães

Resumo


O exílio é uma questão universal e pode ser vivido dentro da própria pátria ou da comunidade – o aqui chamado exílio existencial, íntimo ou interior – e/ou vivido fora delas como o que se verifica com os deslocamentos humanos que ocorrem em toda a História, com destaque para os trágicos movimentos migratórios no século XXI. Comumente associado à situação resultante de deslocamento geográfico, o exílio também ocorre em lugares/espaços não geográficos, no interior do
indivíduo. Esse indivíduo é banido de seu grupo social por não aderir aos valores compartilhados pela maioria, com isso torna-se um exilado. Na dimensão literária, existe uma tradição de poemas de exílio. Neste artigo, são analisados poemas de Ferreira Gullar, um poeta brasileiro herdeiro dessa tradição. Para determinar a escolha e a análise dos poemas considerados “de exílio”, foram levados em conta a presença, na cena poética, dos seguintes aspectos: o exilado está fora de casa, tem consciência do exílio, é um ser sozinho, deseja um paraíso e passou por uma experiência de exílio anterior. Observa-se nos poemas escolhidos tanto um exílio íntimo como aquele resultado de deslocamentos geográficos. Também é possível ver, nesses poemas, que ser poeta é ser uma voz dissonante e uma estratégia para se sobreviver ao exílio ou cultivar a língua perdida. Nesses poemas sobressai a questão do retorno como uma tentativa de buscar o paraíso no texto. As análises desses poemas são orientadas especialmente pelas reflexões teóricas de Edward Said, Homi K. Bhabha, Jacques Derrida, Paul Ilie e Paul Tabori.

Palavras-chave


exílio; ensimesmamento; exílio político; migração; paraíso; poesia brasileira

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