A naturalização do irreal: a metamorfose em contos de Murilo Rubião e José J. Veiga

Antonia Marly Moura da Silva

Resumo


Na tradição do tratamento conferido ao tema da metamorfose, em obras literárias ou não, o desenho inverossímil da transformação/regeneração, física e ou psicológica, acentua os desígnios divinos e extraordinários do fenômeno. A inspiração na tradição oral, na magia ou no mito concentra o episódio em relações que se estabelecem com o sobrenatural e em outras instancias insólitas que aproximam a metamorfose da experiência do divino. Na literatura contemporânea, o esfacelamento dos seres ficcionais se verifica no entrecruzamento de elementos verossímeis e inverossímeis. No delineamento fabular, aspectos da narrativa e atitudes de personagens realçam a metamorfose como atributo banal e naturalmente aceito pelos seres de papel, o impossível se aloja em manifestações corriqueiras do cotidiano integrando uma completa coesão entre o natural e o sobrenatural. Nos contos “Os dragões” (1965) e o “O cachorro canibal” (1968) dos escritores brasileiros Murilo Rubião e José J. Veiga, respectivamente, nenhuma explicação é dada a estranha dualidade dos personagens. O irreal se encaixa harmoniosamente em situações ordinárias, subvertendo a concepção que temos de realidade. Mestres na arte da incerteza e reconhecidos pela extraordinária habilidade em coligar o inverossímil e o desconhecido pelas fendas do imaginário, Veiga e Rubião compactuam uma nova perspectiva ficcional na arquitetura do fantástico. É, pois, seguindo tal pensamento que pretendemos neste trabalho analisar os dois contos referidos com foco no diálogo intertextual entre os dois escritores e na exploração temático-formal da metamorfose a fim de suscitar reflexões sobre a feição renovadora do fantástico contemporâneo.

Palavras-chave


intertextualidade; conto brasileiro; Murilo Rubião; José J. Veiga; fantástico; metamorfose

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