Mulher negra entre a maternidade e a violência: a representação rasurada na literatura canônica brasileira

Fabiana Carneiro da Silva

Resumo


A presença da mulher negra no conjunto de obras que foi alçado à condição de literatura canônica brasileira é reduzida e, quando existente, da-se por meio de estereótipios e estigmatizações. Dentre essas representações, destacam-se o estereótipo da “mulata” e o da “mãe-preta”, em ambos os casos figuras em que a maternidade surge como interdição. Tendo com pressuposto o trabalho de análise do romance contemporâneo Um defeito de cor, escrito por Ana Maria Gonçalves e
publicado em 2006, esse artigo propõe-se a refletir sobre como a maternidade negra foi configurada, sobretudo por meio do mito da “mãe-preta”, na literatura canônica produzida no Brasil. Objetiva-se, assim, apresentar como a rasura da concepção da mulher negra como mãe vincula-se ao construto ideológico do nacionalismo brasileiro – o qual opera a partir da obnubilação das fronteiras, diferenças e conflitos raciais – e, no mesmo contínuo, à dificuldade de assunção da matriz africana na constituição transatlântica da história do país.

Palavras-chave


teoria literária e fronteiras raciais; maternidade negra no Brasil; “Mães-Pretas”; literatura negra e ideologia da democracia racial brasileira; literatura canônica e nacionalismo; Um defeito de cor

Texto Completo:

PDF

Referências


Corrêa, M. (1996). Sobre a invenção da mulata. Cadernos Pagu, 6/7. Campinas. Disponível em: file:///C:/Users/Fabiana/Downloads/1860-2481-1-SM.pdf. Acessado em 07/2016.

Costa, J. F. (1979). Ordem médica e Norma Familiar. Rio de Janeiro: Edições Graal.

Dalcastagnè, R. (2011). A personagem negra na literatura brasileira contemporânea. In Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica (vol. 4: história, teoria, polêmica). Belo Horizonte: Editora UFMG.

Deiab, R. A. (2006). A mãe-preta na literatura brasileira: a ambiguidade como construção social (1880-1950) (Dissertação de Mestrado). Universidade de São Paulo: Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Departamento de Antropologia da FFLCH.

Duarte, E. A. (2009). Mulheres marcadas: literatura, gênero e etnicidade. Terra roxa e outras terras: Revista de estudos literários. Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 17 A.

El-Kareh, A. C. (2004). Famílias adotivas, amas-de-leite e amas-secas e o comércio de leite materno e de carinho na corte do Rio de Janeiro. Revista Gênero, Niterói, 4 (2).

Evaristo, C. (2005). Gênero e Etnia: uma escre(vivência) de dupla face. In Mulheres no Mundo:Etnia, Marginalidade e Diáspora. João Pessoa: UFPB, Idéia/Editora Universitária.

Freyre, G. (2013). Casa Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. São Paulo: Global.

Gonçalves, A. M. (2006). Um defeito de cor. São Paulo: Editora Record.

Guimarães, B. (1998). A escrava Isaura. São Paulo: Martin Claret.

Machado, M. H. P. T. (2012). Entre Dois Beneditos: Histórias de amas de leite no ocaso da escravidão. In Mulheres Negras no Brasil Escravista e do Pós-Emancipação. São Paulo: Summus/Selo Negro.

Mott, M. L. B. (1989). Se mãe: a escrava em face do aborto e do infanticídio. Revista de História. São Paulo: FFLCHUSP, 120.

Roncador, S. (2008). O mito da mãe preta no imaginário literário de raça e mestiçagem cultural. In Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. Brasilia: UNB, 31.

Telles, L. F. S. (2013). Libertas entre sobrados: mulheres negras e trabalho doméstico em São Paulo (1880-1920). São Paulo: Alameda.

Wallace-Sanders, K. (2008). Mammy: a century of race, gender, and southern memory. Ann Arbor: University of Michigan Press.