A estética do silêncio como grito de maturidade desencantada: O Eu Desconhecido (2016) de Carlos Carranca

Ana Maria Pinhão Ramalheira

Resumo


O último livro de poesia de Carlos Carranca, O Eu Desconhecido (2016), constitui uma viragem no percurso estético-literário do autor, no sentido de uma acentuada tendência para a redução linguística e para o hermetismo. Ao longo de 69 composições poéticas de três versos não rimados, que apresentam fortes semelhanças com os haikus, o poeta tenta restituir ao verbo um significado primevo, mais depurado, menos desgastado. Dos poemas em apreço ressuma uma espécie de estética do silêncio, uma condição essencial não só para a sobrevivência da poesia, mas também para o desvendar do segredo que subjaz ao sentido desse aparente absurdo que é a própria vida.
O carácter tendencialmente opaco da retórica do silêncio, amiúde decorrente de realidades disfóricas, prende-se igualmente com uma forma de contemplar, de reter o tempo, no sentido de convocar o pensamento e a reflexão, em busca do “eu desconhecido”. Penso que é exactamente neste sentido que deve ser entendida a nova abordagem poética de Carlos Carranca, em que a retórica do silêncio, também usada como forma de resistência, vai ao encontro do tal “projecto mítico de
libertação total” de que falava Susan Sontag. Por outro lado, a procura obsidiante e solitária de um “eu desconhecido” remete para o conceito de “individuação” de Carl G. Jung, na medida em que o dilema do sujeito poético perante uma realidade traumática parece decorrer de uma certa
incapacidade de dar uma resposta às questões do sentido da vida e de um sentido para a vida.

Palavras-chave


Carlos Carranca; estética do silêncio; haiku; processo de individuação; Sísifo

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